Realidade e ilusão. Desejo, felicidade e sofrimento.

“O que hoje pode ser uma verdade incontestável, daqui a séculos poderá ser objeto de ridículo”, escreve Adelmo Pinho.
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Será que a vida é uma grande ilusão e tudo que se busca no cotidiano, emprego, dinheiro, poder, lazer, trabalho, paz, sexo etc., não passa de uma falsa realidade? Schopenhauer, em “O mundo como vontade e representação” aborda o tema com profundidade. Para esse filósofo, não temos a capacidade de ver a realidade como ela é, mas somente uma representação dela com base naquilo que é produzido pela nossa mente.

Desse modo, observamos aquilo que a razão e os sentidos interpretam como sendo, mas não vemos a coisa em si, como já teorizou Kant. O que é real, então? Será que temos um obstáculo diante dos olhos?

Sábios Hindus, há milênios, falavam da ilusão dos sentidos da Deusa Maya,
que tinha o poder de encobrir ou esconder a verdade (O Véu de Maya).

Para Schopenhauer, o que vemos no mundo sensível ou físico (teoria de Platão) é uma projeção filtrada da realidade. Para Platão existem dois mundos: o sensível – o mundo cotidiano – e o mundo inteligível – mundo das ideias -. O mundo sensível é o dos fenômenos que conhecemos no dia a dia, sendo transitório.

Já o mundo das ideias ou inteligível, é o permanente, da verdadeira essência. O Mito da Caverna de Platão demonstra metaforicamente essa diferenciação. Na vida, quantas vezes acreditamos ter certeza, por exemplo, de que dissemos algo determinado a alguém, ou que vimos uma pessoa conhecida, mas, depois, constatamos que aquilo não fora dito e a tal pessoa nos era desconhecida?

Nossa percepção da realidade, assim, nem sempre é confiável. A mente falha …Schopenhauer explica que o desejo tem influência direta sobre essa falsa percepção do que é real. O desejo de amar, de consumir, de viajar, de promoção, dentre outros, nos faz correr atrás, para que seja realizado.

Porém, quando se concretizam, permanece a insatisfação e novo desejo aparece. O que todo ser humano busca é a felicidade, que está condicionada ao desejo. A vontade, segundo Schopenhauer, é a mola propulsora dos desejos que não têm fim, que gera a infelicidade.

Ela (vontade) controla o ser humano de forma irracional e o impede de ver a realidade. Para esse filósofo, a felicidade é uma ilusão, porque a realidade é de dor e sofrimento (origem no Budismo e no Hinduísmo). A única forma de extinguir o desejo, segundo ele, é renunciando aos prazeres terrenos (Ascetismo), como pregado pela doutrina Judaico-Cristã e pelo Budismo.

Estamos, assim, num mundo de ilusão? Podemos confiar nas coisas como são? E se tudo não passar de um “grande teatro” mental? De onde surgiram os conceitos sobre nós, individualmente, sobre os outros e sobre o mundo? Foram narrativas construídas? Michel Foucault foi um exímio questionador sobre a origem das coisas (prisão, loucura etc.), não sem razão.

O que hoje pode ser uma verdade incontestável, daqui a séculos poderá ser objeto de ridículo. Antes de Copérnico, no século XVI, a teoria era de que o sol girava em torno da terra, e não o contrário. Houve a falsa percepção de uma realidade, que a ciência provou ser irreal. Como, então, ver a realidade do “mundo das ideias”, se temos um suposto “véu” que impede?

Para Schopenhauer, o segredo para ver além do mundo sensível ou fenomênico, está relacionado ao controle sobre a vontade (desejo) e na arte (música, poesia, pintura etc.). A arte funciona, assim, como um instrumento que “perfura o véu”, obstáculo que impede o acesso ao transcendental.

A racionalidade (uso da razão) é só uma parte da vontade irracional, que é maior e age como uma força cósmica desorganizada (“todo”). A vontade, segundo Schopenhauer, só pode ser sentida (vem do sentimento), por isso, não é racional. Enfim, tudo o que se tem como real e certo, existe? Ou a realidade verdadeira (a essência) está somente no transcendental (mundo das ideias)?

Em síntese, para Schopenhauer, o abandono do desejo (Ascetismo) e a arte são meios de enxergar outra realidade e sair da ilusão deste mundo material de dor e sofrimento.

Adelmo Pinho é articulista, cronista e membro da Academia de Letras de Penápolis e da Academia Araçatubense de Letras.

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