O ano era 1.926. Araçatuba ainda era uma “jovem adolescente” com 18 anos incompletos. O clima político no município, fundado em 2 de dezembro de 1908, era de absoluta hostilidade, alimentada pela rivalidade entre dois grupos, liderados pelos coronéis Joaquim Pompeu de Toledo e Guilherme de Souza. Em meio a um resultado eleitoral não aceito por uma das facções é que a cidade vivenciou a incomum e excêntrica situação de ter duas Câmaras Municipais.
Para entender esta história que, em 2024 completa 98 anos, é preciso mencionar a Revolução Tenentista de 1924, que fracassara em seu intento de derrubar o governo de Arthur Bernardes. O fato é contado pelo delegado de polícia e escritor Fabriciano Juncal (in memoriam), em seu livro “A Verdadeira História de Araçatuba, publicado em 1974. Juncal viveu na pele o episódio e contou com detalhes o fato.
Até então, quem dominava a política araçatubense era o grupo de Pompeu de Toledo, que fora, inclusive, o primeiro prefeito da cidade. A derrocada do levante, no entanto, fortaleceu o partido PRP da capital paulista, a quem Toledo se opusera, embora pertencesse ao PRP local.
O diretório municipal do partido passou, então, por uma reestruturação, com o afastamento de Toledo e a ascensão ao poder de Guilherme de Souza. Com isso, o embate entre os dois grupos políticos ficou ainda mais acirrado.
Em novembro de 1926, nas eleições para a Câmara Municipal, o grupo de Toledo acaba levando a melhor nas urnas, o que provoca a ira de Souza, pois era ele quem saíra fortalecido com o fim da Revolução Tenentista e contava com a vitória.
O juiz Benito Secundes Pinto, ligado a Pompeu de Toledo, era o responsável pelas atas eleitorais e, conforme Juncal, manipulou os documentos para que seu aliado saísse vencedor.
Inconformado com o resultado e alegando ser o legítimo vencedor, Guilherme de Souza resolve criar uma segunda Câmara Municipal, que passou a funcionar na redação do jornal “A Comarca”, fundado dois anos antes, provocando muita confusão entre os habitantes.
Prisão e renúncia dos eleitos
O imbróglio das duas Câmaras Municipais só foi resolvido em 1927, quando Souza decide que os vereadores eleitos deviam ser presos.
No início daquele ano, ele reuniu em sua casa o também coronel Francisco Correia, Basílio Tavares e Fabriciano Juncal, para resolver a questão. Seu objetivo era prender os eleitos e coagi-los a renunciar em favor de seu grupo.
Naquela época, Araçatuba era conhecida pela violência e a existência de jagunços que trabalhavam para os coronéis, assassinando os rivais sem dó nem piedade.
Fabriciano Juncal, que era delegado nomeado por Souza, se recusou a participar do intento, após receber uma represália de Toledo, e abriu mão de seu cargo em favor de Quinzote, jagunço do coronel Guilherme de Souza, que executa o plano de prender todos os vereadores eleitos. Até o prefeito da cidade na época, José Gomes do Amaral, acabou preso.
Na prisão, os vereadores foram forçados a renunciar. Com a renúncia forçada dos eleitos, Guilherme de Souza obrigou o juiz a lavrar nova ata, dando posse a seus aliados. Depois disso, os ex-vereadores e o então prefeito foram libertados.
Terra violenta e sem lei
A violência que fazia de Araçatuba manchete de jornais de todo o Brasil se agravou ainda mais. Como o prefeito José Gomes do Amaral havia sido agredido pelo carcereiro de Guilherme Marques Prazeres, o ex-prefeito Pompeu de Toledo mandou executar o carcereiro, para vingar seu aliado.
Depois de matar Prazeres, os jagunços foram até a redação de “A Comarca” para executar o jornalista Manuel Ferreira Damião, mas ele não estava. Eles, no entanto, atacaram o prédio do jornal, que ficou crivado de balas.
A partir daí, houve uma sequência de execuções na cidade, que ganhou fama nacional de terra sem lei.
