Júri absolve PM que baleou e matou campeão de jiu-jítsu Leandro Lo

Os sete jurados acataram a tese de legítima defesa
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O policial militar Henrique Otávio de Oliveira Velozo foi absolvido na noite desta sexta-feira (14 de novembro) pelo júri popular que o julgava por matar o campeão mundial de jiu-jítsu Leandro Lo com um tiro na cabeça. Após três dias de julgamento no plenário 6 do Fórum Criminal da Barra Funda, na Zona Oeste de São Paulo, os sete jurados (cinco mulheres e dois homens) reconheceram que o policial agiu em legítima defesa, acatando integralmente a tese defendida por seus advogados. O advogado Cláudio Dalledone confirmou o resultado por telefone, afirmando que “a absolvição ocorreu porque o policial agiu em legítima defesa”.

O crime ocorreu na madrugada de 7 de agosto de 2022, dentro do Clube Sírio, no bairro de Indianópolis, na Zona Sul de São Paulo, durante um show do grupo Pixote. Segundo as investigações, Velozo se desentendeu com Leandro Lo na casa de show. De acordo com testemunhas, o policial provocou o confronto ao dirigir-se à mesa onde o lutador e amigos estavam, pegando uma bebida que pertencia ao grupo.

Lo se levantou, imobilizou o policial, recuperou a bebida e retornou à mesa. Velozo então sacou uma arma e disparou um tiro direto na cabeça de Leandro, na altura da testa, antes de ainda desferir dois chutes contra o lutador já caído. Leandro Lo foi socorrido e levado ao Hospital Saboya, onde teve morte cerebral constatada durante a madrugada.

Leandro Lo Pereira do Nascimento era considerado um dos maiores atletas da história do jiu-jítsu moderno. Nascido em 11 de maio de 1989, ele conquistou oito títulos de Campeão Mundial (IBJJF) em 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2018, 2019 e 2022, além de cinco Copas do Mundo e oito medalhas em Pan-Americanos.

O lutador começou suas práticas aos 14 anos, em 2004, através de um projeto social, e recebeu sua faixa preta aos 20 anos. Seu notório desempenho nas competições internacionais o transformou em ícone do esporte e referência global entre os praticantes.

A absolvição termina uma fase crítica do processo que enfrentou diversos empecilhos processuais. O julgamento estava marcado originalmente para maio de 2025, mas foi adiado antes mesmo de começar sob a alegação de cerceamento de direitos da defesa.

Remarcado para agosto, o júri foi suspenso novamente, dessa vez após intenso bate-boca entre o Ministério Público e os advogados do acusado durante o segundo dia, incluindo discussões sobre evidências e alegações de ingestão de drogas. Foram ouvidas nove testemunhas no total: quatro pela acusação, quatro pela defesa e uma testemunha neutra.​​

O Ministério Público havia denunciado Velozo por homicídio triplamente qualificado, com qualificadores de motivo torpe, emprego de meio insidioso ou cruel e traição ou emboscada, pedindo condenação de pelo menos 20 anos de prisão.

João Carlos Calsavara, o promotor responsável pela denúncia, definiu o julgamento como “complicado, com nulidades” e afirmou que acredita que a decisão será anulada, sinalizando que pode haver recurso.

A reação da família foi imediata e de profunda indignação. Fátima Lo, mãe de Leandro, expressou inconformismo com o veredito, reiterando sua convicção de que o crime foi premeditado. Nos dias anteriores ao julgamento, ela havia afirmado: “Ele atirou na cabeça do meu filho, deu dois chutes na cabeça dele já caído no chão, não prestou socorro, não chamou a polícia. Querem alegar legítima defesa porque eram dois lutadores juntos. Como é legítima defesa com um tiro na cabeça e dois chutes? (…) Ele é um monstro, uma mente assassina que gosta de matar. Tem que ficar preso — e numa cadeia comum, não no Romão Gomes, protegido. Ele é um assassino cruel”. A absolvição deixa em aberto a possibilidade de recursos pelo Ministério Público contra a decisão dos jurados.

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