De repente o Brasil inteiro quis morder um morango. Mas não qualquer um, não! Um morango vestido para festa de fim de ano: brigadeiro branco, calda vermelha brilhante e casquinha crocante. Uma coisa meio fruta, meio sobremesa, meio fetiche de rede social. O nome? “Morango do amor!”. Mas vamos aqui chamá-lo de “símbolo açucarado de uma geração ansiosa”. Um doce que promete prazer fácil e aceitação instantânea: a fila dobra a esquina; os stories fervem; os adultos… hum… salivam!
Mas será que é mesmo sobre o doce?
Ziraldo, em “O Pequeno Planeta Perdido” (1985), nos apresenta a um astronauta que foi mandado a um planeta distante e lá encalhou sem combustível. Gritando por ajuda, todos na Terra impressionantemente o ouviram e mandaram o que achavam que ele precisava: livros, discos, headphones, comida, mas ignoravam o essencial. O que o astronauta realmente queria?
O ser humano, esse amontoado de carne e carência, levanta todo dia da cama com mais fome de pertencimento que de pão. Esse desejo urgente, infantilizado e quase histérico por um doce viral não é apetite – é crise estética, emocional e, pasmem, sensorial.
Vamos ser justos: crianças urgirem por provar é natural. Elas estão conhecendo o mundo – nunca pegaram vôo sozinhas, não tomaram vinho olhando o mar ao lado de alguém que lhes deixou as pernas bambas. Não leram Clarice Lispector nem se perderam na madrugada reflexiva depois de um filme ruim. Crianças precisam experimentar.
Nosso astronauta moderno já é crescido e não está num planeta perdido e distante. Está preso no planeta tedioso da própria existência, tentando sentir prazer num morango empalhado de brigadeiro.
Mas quem se importa com isso quando se pode enviar um pacote embalado com glitter e performance? A Terra responde como sempre: com distrações cibernéticas – uma nova trend. Uma bala colorida para um buraco negro.
O “morango do amor”, assim como os pacotes que mandaram ao astronauta do Ziraldo, de amor não tem nada. É o novo foguete enviado para silenciar o grito do pedido por socorro: “I feel nothing!”.
E eu não acho que não sintamos por falta de opções, mas porque trocaram o repertório de vivências por uma vitrine de consumo simbólico. Tesão por doce. Amor por brigadeiro.
Enquanto isso, o astronauta crescido segue com o voraz apetite de criança e a imaginação de algoritmo, mergulhando os dentes numa crise identitária com gosto de açúcar queimado. Gritando por algo que não se dissolva no primeiro gole de água. Mordendo o dedo e fingindo que é a vida pulsando.
Ananda Soares Rosa é arquiteta e urbanista e professora universitária