A partir da 1h01 desta quarta-feira (6), entraram em vigor as tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros, estabelecendo o Brasil como o país com a maior tarifa individual aplicada pelos americanos. A medida, anunciada pelo presidente Donald Trump em 30 de julho, representa uma sobretaxa de 40% adicionada à tarifa básica de 10% já existente.
A Casa Branca justificou o tarifaço como resposta a “políticas, práticas e ações recentes do governo brasileiro que constituem uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos”. O decreto oficial cita especificamente os processos judiciais contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) como motivação principal da medida.
O texto americano menciona diretamente o ministro Alexandre de Moraes, acusado de “ameaçar, perseguir e intimidar milhares de seus opositores políticos” e de impor multas a empresas americanas que se recusaram a cumprir ordens de censura. Como consequência, nove ministros do STF e o procurador-geral da República tiveram seus vistos americanos revogados.
Lista de exceções ameniza impacto
Apesar da alta alíquota, uma lista de 694 produtos foi excluída do tarifaço, incluindo suco de laranja, aeronaves civis, petróleo, veículos, fertilizantes e produtos energéticos. Segundo cálculos da Câmara Americana de Comércio no Brasil, essas exceções contemplam cerca de 45% das exportações brasileiras para os EUA.
Os produtos isentos continuarão pagando a tarifa básica de 10%, enquanto os demais enfrentarão a cobrança total de 50%. Entre os setores mais afetados estão café, carne bovina, produtos semimanufaturados de ferro e aço, calçados e frutas frescas.
Empresas já sentem impactos imediatos
O setor exportador brasileiro começou a sentir os efeitos antes mesmo da entrada em vigor das tarifas. No Rio de Janeiro, segundo maior parceiro comercial dos EUA no país, 42% das empresas afetadas admitem a possibilidade de demissões, segundo pesquisa da Federação das Indústrias do Estado (Firjan).
Em Caxias, uma empresa exportadora de pescados viu os custos com frete aéreo dispararem nas últimas semanas ao tentar embarcar mercadorias antes do prazo limite. “É praticamente uma proibição. A tarifa de 50% inviabiliza o negócio”, afirmou Rafael Barata, diretor de comércio exterior da empresa.
Em Petrópolis, a empresária Déspina Filios, que comanda uma confecção de biquínis há 35 anos e exporta 60% da produção para os EUA, reconhece que precisará repassar o impacto aos consumidores. “Não dá para absorver esse impacto sozinha. Os preços vão subir e as vendas devem cair”.
Impacto econômico calculado em bilhões
Estudo da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) projeta que as tarifas podem reduzir o PIB brasileiro em R$ 25,8 bilhões no curto prazo, com perda de 146 mil postos de trabalho formais e informais em até dois anos. A renda familiar pode encolher em R$ 2,74 bilhões no mesmo período.
No longo prazo, entre cinco e dez anos, o impacto pode ser ainda mais severo, com redução de R$ 110,4 bilhões no PIB e perda de 618 mil postos de trabalho. Os setores industriais mais vulneráveis são siderurgia, fabricação de produtos de madeira, calçados e máquinas e equipamentos mecânicos.
Governo prepara plano de contingência
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva informou que o governo está finalizando um plano de contingência para ajudar empresas brasileiras afetadas. Durante evento no Itamaraty, Lula afirmou que não ligará para Trump para negociar sobre o tarifaço, mas pretende convidá-lo para a COP30 em novembro, em Belém.
Entre as medidas em análise estão negociações para reduzir tarifas de produtos específicos, abertura de novos mercados, oferta de crédito subsidiado aos exportadores prejudicados, proteção via compras governamentais e programas temporários de renúncia fiscal.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, busca agendar reunião com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, como preparação para um eventual encontro entre Lula e Trump. “O Brasil nunca saiu da mesa de negociação. A questão é agendar”, declarou Haddad.
Mercados alternativos como estratégia
A menor dependência brasileira do mercado americano pode amenizar o impacto das tarifas. As vendas para os EUA representam atualmente 12% das exportações nacionais, uma redução significativa em relação aos 25% registrados em 2002. Enquanto isso, 28% das vendas externas do país são direcionadas para a China.
No setor cafeeiro, a China habilitou 183 exportadores brasileiros no mesmo dia do anúncio do tarifaço, oferecendo uma alternativa parcial ao mercado americano. “Vamos intensificar as conversas e mostrar que a tarifa é inadequada para nós, mas principalmente para o consumidor norte-americano”, disse Marcos Matos, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil.
O governo brasileiro também deve recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas americanas, conforme aprovação do Conselho de Ministros da Câmara de Comércio Exterior (Camex). Estados como Goiás, São Paulo e Minas Gerais já desenvolveram planos próprios de contingência para auxiliar empresas regionais mais afetadas.