Brasil quer diálogo, mas não aceita chantagem, diz Lula em artigo no New York Times

O artigo surge em meio à crescente tensão diplomática após Trump impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros
© Marcelo Camargo/Agência Brasil
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou neste domingo (14) um artigo de opinião no jornal americano The New York Times no qual reafirma a disposição do Brasil para negociar com os Estados Unidos, mas deixa claro que democracia e soberania nacionais não estão à mesa de negociação. O texto surge em meio ao agravamento da crise diplomática entre os dois países, intensificada após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal.

No artigo intitulado “Democracia e Soberania Brasileiras são Inegociáveis”, Lula se dirigiu diretamente ao presidente americano Donald Trump, afirmando que decidiu escrever para estabelecer um diálogo aberto e franco. O presidente brasileiro criticou duramente as tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros, classificando-as como “não apenas equivocadas, mas também ilógicas”.

Lula argumentou que as justificativas econômicas para as sanções não se sustentam, destacando que os Estados Unidos acumularam um superávit de 410 bilhões de dólares no comércio bilateral de bens e serviços nos últimos 15 anos.

O presidente brasileiro ressaltou ainda que 75% das exportações americanas para o Brasil entram com tarifa zero, e a tarifa média efetiva sobre produtos americanos é de apenas 2,7%. Oito dos 10 principais itens têm tarifa zero, incluindo petróleo, aeronaves, gás natural e carvão.

“A falta de justificativa econômica por trás dessas medidas deixa claro que a motivação da Casa Branca é política”, escreveu Lula, fazendo referência às declarações do vice-secretário de Estado Christopher Landau, que teria admitido a empresários brasileiros que o governo americano está usando tarifas e a Lei Magnitsky para buscar impunidade para Bolsonaro.

Condenação de Bolsonaro

O presidente brasileiro defendeu energicamente a decisão histórica do STF que condenou Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. Lula afirmou estar “orgulhoso da Suprema Corte brasileira por sua decisão histórica que protege nossas instituições e o Estado democrático de direito”.

“Esta não foi uma ‘caça às bruxas’. A decisão foi resultado de procedimentos conduzidos em conformidade com a Constituição Brasileira de 1988, promulgada após duas décadas de luta contra uma ditadura militar.”, enfatizou o presidente, mencionando que as investigações descobriram planos para assassinar ele próprio, o vice-presidente e um ministro da Suprema Corte, além de um decreto que efetivamente anularia os resultados das eleições de 2022.

A condenação de Bolsonaro gerou forte reação do governo Trump. O presidente americano disse estar “muito insatisfeito” com a decisão e a considerou “muito terrível” e “ruim para o Brasil”. O secretário de Estado Marco Rubio foi mais contundente, afirmando que os Estados Unidos darão “resposta à altura a essa caça às bruxas”.

Tensão diplomática

A crise entre Brasil e Estados Unidos se intensificou após Trump impor em julho tarifas punitivas de até 50% sobre quase 700 produtos brasileiros, uma das maiores alíquotas impostas pelos EUA a qualquer país. Além das medidas comerciais, Washington incluiu o ministro Alexandre de Moraes na lista de sanções da Lei Magnitsky, com restrições de visto a ele e familiares.

Marco Rubio elevou o tom após a condenação de Bolsonaro, acusando Moraes de “violar direitos humanos” e prometendo retaliação. O secretário de Estado classificou o processo contra Bolsonaro como perseguição política e disse que “os Estados Unidos responderão à altura dessa caça às bruxas”.

O Itamaraty reagiu prontamente às ameaças americanas, divulgando nota que reafirma a soberania nacional. “As instituições democráticas brasileiras deram sua resposta ao golpismo. Continuaremos a defender a soberania do país de agressões e tentativas de interferência, venham de onde vierem”, declarou o Ministério das Relações Exteriores.

A diplomacia brasileira enfatizou que “ameaças como a feita pelo secretário de Estado norte-americano, que ataca autoridade brasileira e ignora os fatos e as contundentes provas dos autos, não intimidarão nossa democracia”.

Questões regulatórias e ambientais

No artigo, Lula também rebateu acusações americanas sobre regulação de empresas de tecnologia e questões ambientais. O presidente brasileiro negou que o país pratique censura, argumentando que “todas as plataformas digitais, nacionais ou estrangeiras, estão sujeitas às mesmas leis no Brasil. É desonesto chamar regulamentação de censura, especialmente quando o que está em jogo é a proteção de nossas famílias contra fraudes, desinformação e discurso de ódio. A internet não pode ser uma terra de ilegalidade, onde pedófilos e abusadores têm liberdade para atacar nossas crianças e adolescentes.”.

O presidente também defendeu o PIX, meio de pagamento eletrônico amplamente usado por brasileiros e afastou alegações do governo Trump sobre práticas desleais do Brasil. “Ao contrário de ser injusto com os operadores financeiros dos EUA, o sistema de pagamento digital brasileiro, conhecido como PIX, possibilitou a inclusão financeira de milhões de cidadãos e empresas. Não podemos ser penalizados por criar um mecanismo rápido, gratuito e seguro que facilita as transações e estimula a economia.”

Sobre meio ambiente, Lula destacou que “nos últimos dois anos, cortamos pela metade a taxa de desmatamento na Amazônia” e que em 2024 a polícia brasileira apreendeu centenas de milhões de dólares em bens usados em crimes ambientais. O presidente alertou que a Amazônia ainda estará em perigo se outros países falharem em fazer sua parte na redução das emissões de gases de efeito estufa.

Análise internacional

A situação sem precedentes levou analistas internacionais a caracterizar o Brasil como “um experimento de como desafiar o presidente Trump”. Artigo no próprio New York Times, assinado por Steven Levitsky e Filipe Campante, elogiou a firmeza brasileira, afirmando que “o Brasil teve sucesso onde os Estados Unidos falharam” ao responsabilizar um ex-presidente por ataques à democracia.

Os especialistas destacaram que “os paralelos entre Brasil e EUA são notáveis – ambos elegeram presidentes com instintos autoritários que atacaram instituições democráticas após perder a reeleição”, mas criticaram os americanos por fazerem “muito pouco para proteger sua democracia do líder que a atacou”.

Tensão continuará

Integrantes do governo Lula avaliam que a tensão com os Estados Unidos continuará até as eleições de 2026, considerando que Trump deseja ver um governo mais à direita no Brasil. Há expectativa de que a pressão americana seja direcionada ao Congresso Nacional para apoiar a aprovação de uma anistia aos golpistas.

A diplomacia brasileira, segundo fontes do Itamaraty, pretende “deixar a poeira baixar” e continuar investindo no diálogo, mesmo diante das ameaças de novas sanções. A estratégia é manter uma linha diplomática de diálogo constante, mas também de soberania e altivez nacional.

No encerramento do artigo no New York Times, Lula fez um apelo direto a Trump, lembrando declaração do próprio presidente americano na ONU em 2017: “Presidente Trump, permanecemos abertos a negociar qualquer coisa que possa trazer benefícios mútuos. Mas a democracia e soberania do Brasil não estão na mesa”. O presidente brasileiro concluiu afirmando ver a relação como “duas grandes nações capazes de se respeitar mutuamente e cooperar para o bem de brasileiros e americanos”.

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