PF apura trend que incita violência contra mulher “caso ela diga não”

Investigação foi aberta após pedido da AGU sobre vídeos nas redes sociais que simulam agressões físicas contra mulheres.
Compartilhe

A PF vai investigar a trend “caso ela diga não”, nas redes sociais, que reúne conteúdos de apologia à violência contra a vida e a integridade física de mulheres. O inquérito foi instaurado após pedido da AGU, que encaminhou notícia-crime à corporação no domingo, 8, Dia Internacional da Mulher.

Os vídeos, publicados no TikTok e já retirados da plataforma, mostravam jovens simulando chutes, socos e facadas contra manequins que representavam mulheres. As postagens traziam ainda mensagens que associavam a violência a situações de rejeição afetiva, com frases como “Treinando caso ela diga não”.

O pedido de apuração foi apresentado pela Pndd – Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia, vinculada à AGU. No documento, o órgão apontou ao menos quatro perfis responsáveis pela divulgação desse tipo de conteúdo.

Segundo a AGU, as publicações comprometem a atuação estatal voltada à promoção e proteção dos direitos das mulheres e enfraquecem a efetividade das políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero e de promoção da igualdade material.

Pedido citou risco coletivo às mulheres

O  procurador nacional da União de Defesa da Democracia, Raphael Ramos, afirmou que, mesmo sem vítima identificada, a divulgação reiterada de conteúdo misógino ameaça os direitos fundamentais das mulheres e atinge toda a coletividade feminina.

A AGU situou o pedido no contexto do Pacto Brasil de enfrentamento ao feminicídio e defendeu o aperfeiçoamento da governança das plataformas digitais, por considerar insuficientes as medidas já adotadas.

Na notícia-crime, o órgão apontou que os vídeos podem configurar crimes como feminicídio, lesão corporal, ameaça, perseguição, violência psicológica, incitação ao crime e apologia criminosa.

Para reforçar a gravidade do caso, citou dados do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, que apontou 6,9 mil vítimas de casos consumados e tentados, alta de 34%. Com a instauração do inquérito, a PF passa a investigar a disseminação da trend e a responsabilidade dos envolvidos.

Movimento redpill

Nas redes sociais, a repercussão da trend também levou usuários a associar o conteúdo ao universo redpill, termo usado para designar comunidades online frequentemente ligadas à circulação de discursos misóginos.

O redpill é um conjunto de grupos virtuais, formados majoritariamente por homens, que afirmam ter “despertado” para uma suposta realidade sobre relações entre homens e mulheres. O termo vem do filme Matrix, em que tomar a “pílula vermelha” simboliza enxergar a verdade escondida. Em muitos desses espaços, circulam críticas ao feminismo e visões hostis às mulheres, sobretudo em discussões sobre relacionamentos, casamento e papéis de gênero. 

Um exemplo citado nesse contexto foi o caso de Vitor Hugo Oliveira Simonin, investigado por estupro coletivo no Rio de Janeiro, que chamou atenção ao se apresentar à polícia usando uma camiseta com a frase “Regret nothing” (“Não se arrependa de nada”), mensagem que, nas redes, foi aproximada do discurso propagado em comunidades redpill, hoje personificado sobretudo na figura do influenciador britânico Andrew Tate.

Fonte: Migalhas

Compartilhe