O uso de uma polipílula composta por três medicamentos anti-hipertensivos em baixas doses reduziu em 39% o risco de recorrência de acidente vascular cerebral (AVC) em pacientes que já haviam sofrido um AVC hemorrágico. O resultado foi constatado pelo estudo internacional TRIDENT, que acompanhou 1.670 pacientes durante cinco anos em 61 centros de pesquisa distribuídos por 12 países, incluindo a Faculdade de Medicina da Unesp (FMB), em Botucatu.
O AVC é atualmente a segunda principal causa de morte no Brasil e a principal causa de incapacidade. Somente em 2024, mais de 106 mil mortes foram registradas em decorrência da doença, segundo dados do DataSUS. Além disso, cerca de 70% dos sobreviventes não retornam ao trabalho e metade passa a depender de cuidados permanentes, de acordo com a Sociedade Brasileira de AVC.
A pesquisa avaliou a eficácia de um comprimido único que reúne três medicamentos já conhecidos no mercado: telmisartana, anlodipino e indapamida. A chamada polipílula foi administrada em conjunto com o tratamento convencional dos pacientes após a alta hospitalar. O objetivo era melhorar o controle da pressão arterial, um dos principais fatores de risco para novos episódios da doença.
Ao final do acompanhamento, os pesquisadores observaram que os participantes que receberam a polipílula apresentaram pressão arterial média de 127 mmHg, contra 138 mmHg no grupo que recebeu placebo. Entre os pacientes tratados com a nova combinação, apenas 4,6% sofreram um novo AVC, enquanto no grupo placebo a taxa chegou a 7,4%. Também houve redução na incidência de outros eventos cardiovasculares importantes.
Segundo o neurologista Rodrigo Bazan, chefe do Departamento de Neurociências e Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Botucatu e um dos principais investigadores do estudo no Brasil, a estratégia mostrou resultados expressivos por facilitar a adesão ao tratamento. Durante os cinco anos de pesquisa, 86% dos participantes seguiram corretamente a terapia proposta.
De acordo com o pesquisador, reunir três medicamentos em uma única pílula simplifica a rotina dos pacientes e reduz as chances de esquecimento ou abandono do tratamento. O modelo pode representar um avanço importante para pessoas que precisam controlar a pressão arterial de forma contínua após um AVC.
Os resultados do estudo foram publicados na revista científica The New England Journal of Medicine. A pesquisa contou com financiamento do Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da Austrália e do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), do Ministério da Saúde.
Especialistas também alertam para a proximidade do inverno, período em que os casos de AVC podem aumentar em até 20%. As baixas temperaturas favorecem alterações na pressão arterial, além de contribuírem para a redução da hidratação e da prática de atividades físicas. A recomendação é manter o acompanhamento médico, controlar a pressão regularmente e adotar hábitos saudáveis ao longo do ano.